Banheiro tem manha
Banheiro tem manha. Há alguns anos eu li em algum lugar que é uma coisa muito brasileira perguntar se o banheiro tem alguma manha. É mais ou menos assim: você chega na casa de alguém e essa pessoa te mostra onde você vai dormir e que banheiro usar - porque sim, nós sempre tomamos banho. E logo vem a explicação de como usar a ducha. Se tem manha ou não.
Já vivi isso muitas vezes. Perguntando pro amigo ou explicando. E hoje, pensando nisso, me ocorreu que talvez isso seja herança dos nossos majoritariamente banheiros com aquecimento elétrico, aqueles que dão choque. Lembra que tinha um lance que se você tomasse banho de havaianas não levava choque? Ou se tivesse algum machucado ou cutícula aberta o choque era certo. Era isso mesmo? Não lembro muito bem, só sei que alguém meio que sempre explicava o uso correto do banheiro, incluindo ducha e privada.
Pensei nisso hoje ao tomar banho no meu banheiro - cujas manhas já conheço de cor. Depois de longas horas de aeroporto entre Orlando, Dallas e Santiago, finalmente em casa. Quinze dias de andanças, de outras comidas, outra rotina, outras caras, outras vivências. E agora finalmente em casa.
Não sei bem explicar o que é, mas sempre rola um pequena tristeza de chegar em casa, pelo menos pra mim. Alegria, sim, mas tristeza também. É bittersweet. Talvez porque viagens em geral causam expectativas, antecipação, ansiedade, daquele tipo positivo, que a gente gosta. Aí chega o dia, você sobe no avião, embarca, desembarca, cumpre o roteiro e…acaba. E mesmo que tenha sido bom, fantástico, acaba, e isso deixa um pequeno vazio no peito - que eu gosto de preencher com outro foco, que pode ser outra viagem ou perder o peso que ganhei dessa.
Honestamente, lembro de sentir isso desde pequena. Lembro de ir pensando no carro, nas longas horas da viagem de volta do Sul pra Goiânia, como aquele ano novo seria pra mim. Pensava na nova série que eu ia entrar, nos desafios que viriam, nos novos professores. Naquele meu mundinho de crianças eu já tinha esse instinto de querer organizar as metas do ano. Fazia votos internos de estudar mais e completar as tarefas - que não durava nem duas semanas. Me comprometia comigo mesmo que esse ano eu ia sim revisar a matérias depois da aula. Olha, nunca foi por falta de vontade… o problema era o TDAH que nunca deixou. O mesmo TDAH que me fazia abrir páginas aleatórias de enciclopédia Mirador para aprender algo novo, simplesmente porque me deu vontade.
E hoje, desarrumando a mala, bem cansada e mal dormida, eu parecia que ia botando a vida no lugar de novo. Olhando pro meu apartamento, feliz de estar em casa, de volta no calor, pros meus gatos e minha mesa de trabalho, com suas duas telas. E também com uma pontinha de coração aventureiro que pede por mais viagens.
E enquanto eu passava aspirador, reconectava o monitor no laptop e acendia a vela, pensei que essa casa e esse set-up estão com os dias contados.
Susto. Ansiedade. Felicidade. Tristeza.
É um misto de emoções, que chegam de uma vez e meio que aleatoriamente. Tomam conta, mas não me dominam - talvez porque eu esteja medicada, ou talvez porque eu ainda esteja cansada e mal dormida, sem energia pra me desesperar.
Quanto tempo mais nesse apartamento? Quanto tempo mais com essa vista para esse pedaço de cordilheira? Quanto tempo mais até eu chamar um outro lugar de casa? E olha, o chamar até que é fácil. Difícil é sentir. Lembro que demorei uns 3 meses até começar a me sentir em casa nesse apartamento aqui. Talvez por isso o questionamento interno.
Com tantos anos e horas de vôo, já aprendi que o que posso fazer de melhor é cair logo na rotina de sempre, voltar a comer normal, acordar nos horários de antes, forçar o re-encaixe nessa vida. Até quando tiver que mudar de novo.
Comments
Post a Comment