Tucson, SUN 12 - os arredores.

    Estou num hotel que, ao parecer, fica meio na periferia. No centro é que não é. Mas é uma área perto da universidade do Arizona. Então claro, saí pra caminhar.


    Cidade meio deserta. Uma ou outra pessoa nos parques. Notei logo que o parque não tinha grama verde. Percebi meu estranhamento, que logo foi recebeu o argumento de “pô, a cidade é no meio do deserto, você queria o que?”. É..parques cor de terra, areia, cascalho, sei lá. Ruas sem calçada. Asfalto craquelado, com cara de que precisa receber uma operação tapa-buracos, dessas superfaturadas que resolvem pouco, que parece que enchem os buracos de areia. 


    Cidade estranha. Parece que falta vida. 


    De repente uma família com umas crianças brincando no parque - que tá mais pra praça. Pareciam felizes. E eram os únicos ali. Cadê as outras pessoas, será? Será que estão em casa sozinhas vendo televisão? Deve ser.


    Há algum tempo sempre que venho nos EUA eu noto uma solidão no ar. Um zeitgeist estranho, difícil de explicar, que não sei se é isso mesmo, se é alguma projeção minha. Uma impressão de uma dor profunda na sociedade.


    A gente que cresceu nos anos 90 com filmes tipo Esqueceram de Mim, séries como Friends, Clarissa Knows It All, O Mundo Secreto de Alex Mack e outras, aprendeu a ver os EUA sob essa lente de casinha sem muro, casa de dois andares, gente com vida perfeita. Aí você chega aqui e não é só a falta de calçada e o asfalto que precisa de uma reforma. É gente morando na rua, alguns com óbvios problemas mentais. Gente pedindo na porta de restaurantes e loja de conveniência. E não só isso. Por ter tido a oportunidade de entrar em várias casas de “nativos”, observar a vida deles mais de perto como um antropólogo observa um tribo de um lugar longínquo e desconhecido, sinto essa…”falta de alguma coisa”. Será que é falta de Deus? Não acho. Aqui tem um Deus pra cada um. Na terra dos livres e lar dos corajosos - land of the free and home of the brave - parece existir um lado B de dor, dívida, vícios, doença.


    Na televisão a cada 5 comerciais uns 3 são de algum remédio. Só hoje vi comercial de remédio para disfunção erétil - em gel!, HIV, saúde mental - Betterhelp, diabete e também desses oxigênios portáteis. Além disso muito, mas muito comercial mesmo de fast food. Burger King oferecendo comida por menos de $5 dólares - e sim, é mega barato, dado que qualquer comidinha melhor que fast food vai te custar, por baixo, umas 15 doletas. Mas ... pelo menos a água é “grátis”. E depois comerciais de empresas que emprestam dinheiro, ou que te ajudam a sair das dívidas.


    Até agora Tucson me pareceu uma “Calama com dinheiro” com requintes de “Punta Arenas”. Para os não estão familiarizados com o Chile, Calama é uma cidade no norte do Chile, com o aeroporto mais perto da turística San Pedro de Atacama. Cidade pequena, modesta, sem nada o que fazer de turístico, porém rodeada de um magnífico deserto. Cidade feinha. E Punta Arenas, no outro extremo do país, já quase na Antártida, é uma cidade que passa meses no escuro, e depois meses num sol que quase nunca se põe. Você anda na rua e quase não tem ninguém. Casas cheias de entulho nos quintais, fachadas mal cuidadas, estranhos objetos nas frentes das casas - de bonecas que parecem de terror a pequenas estátuas de bicho.


    E Tucson - pelo menos até agora - parece ser uma mistura dessas duas realidades. Terra cor de deserto, tempo seco, com ruas desertas também, casas modestas e quintais cheios de entulho. E no fundo um barulho de trem, porque afinal aqui é o velho oeste sim. Por vezes parece um cenário de documentário de True Crime.


    E nesse cenário eu penso no zeitgeist que comentei antes. Essa solidão profunda da nação, afundada em dívidas, alcoolismo e outros vícios, doentes e aflitos sobre como pagar pelo tratamento, embrenhados na máquina do capitalismo que mói as almas enquanto as anestesia com consumismo. Esse é os EUA que eu consigo enxergar hoje. Bem diferente do que me venderam nas séries e nos filmes.


    Talvez as lentes que a gente usa pra enxergar o mundo vão variando com a idade. Talvez não, com certeza. E hoje, 22 anos depois de pisar aqui pela primeira vez, essa lente foi se ajustando, se aprofundando. 


    De qualquer maneira eu sou grata. Gosto daqui. Essa sensação de poder tudo ainda permanece - completamente enraizada ao consumismo, que nós latinos também adoramos e bebemos dessa fonte inesgotável. Gosto da educação que em geral as pessoas têm, do serviço nos restaurantes e cafeterias. Gosto especialmente de conversar com os negros, amo o jeito que falam. Gosto - às vezes - de parecer local, e ao mesmo tempo queria que me perguntassem sempre de onde eu sou. 


    E assim começa essa jornada da desconhecida Tucson.


    Amanhã vou pro hotel chique do evento. E a lente vai mudar de novo. Mas mesmo que mudar, eu sei o que eu vi hoje.


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