Aqui Você Pode

     Os Estados Unidos é um país interessante. Mistura de tudo e de todos, e ao mesmo tempo com a possibilidade de ver tudo e todos de um modo separado. Existe um America’s melting pot, mas você olha dentro e rapidinho vê os elementos separados.

Desde a primeira vez que eu pisei aqui eu senti várias coisas. Lembro do que foi caminhar pelo O'Hare, o aeroporto gigante de Chicago em que cheguei pela primeira vez. Em algum momento do caminho olhei pra cima, vi umas luzinhas...provavelmente sorri comigo mesma me sentindo completamente "em casa". Então sim, pra mim aqui tem um pouco disso, de me sentir em casa, mesmo nunca tendo morado um período tão longo de tempo nessas terras. 

Se eu acreditasse em vidas passadas seria muito interessante confirmar em que época morei aqui. Quase tudo daqui me parece familiar, como se eu já tivesse vivido isso antes. Aqui não me sinto estrangeira - tanto que adoro quando me perguntam de onde sou, e aí tenho a oportunidade de dizer que sou estrangeira, mas com aquele ar bobo de quem “passou despercebida”. Digo bobo porque muita gente quer se passar por local por acha que é melhor ser gringo do que brasileiro. No meu caso é quase uma brincadeira de espião. Se eu passar desapercebida, como local, então eu consegui “enganar” todo mundo. É bobo, eu sei. É difícil de explicar. Mas de qualquer forma, aqui eu me sinto mais local do que no Chile. Aqui existe esse “anonimato” e ao mesmo tempo uma familiaridade imensa com tudo o que eu vejo, cheiro e como. Provavelmente graças à incontáveis horas de seriados de filmes que encheram a minha cabeça de imagens e referências que hoje me causam esses déjà-vus.

Outra sensação que exite ao estar aqui é aquela do “eu posso”. Pra nós, latinos, a gente pisa nos EUA e parece que a o bolso começa a coçar. Entra aquela sanha desesperadora de comprar coisas. E eu entendo, já que na maior parte do tempo realmente existiam coisas muito baratas, ou que pelo menos fazia sentido financeiramente em relação aos nossos países de origem - oi, eu, Ylana, falando na 1a pessoa do plural, igual político hahahaha, achando que represento os latinos.

O fato é que como em média o poder de compra daqui é maior, a base da sociedade é consumista. Eles parecem estar acostumados a poder adquirir o que querem. Tudo está a somente algumas lojas de distância. E atualmente apenas a alguns clicks, já que a Amazon parece ter dominado o comércio daqui. Na América Latina temos o Mercado Livre, que fica bem próximo dessa experiência, e também os marketplaces chineses. Essa sensação de que você só sai de casa se quiser é bem real aqui. 

Aqui em Orlando - e região, já que eu estou há uma hora ao sul de Orlando mesmo - a vibe é um pouco diferente. Parece ter mais vida, mesmo aqui no interiorzão onde estou. Não porque tem pessoas na rua - não tem, e nada por aqui é feito para andar. Mas nas poucas interações com outros seres humanos parece existir mais calor. Enfim, às vezes é só maluquice da minha cabeça. Ou talvez seja a latinidade mesmo. Aqui tem muito, muito latino. E a que vos escreve é outra latina, fazendo coisas de latina, indo atrás de coisas de marca mais barata nas lojas de desconto como Ross, Marshalls, Burlington, etc.

E por que nós, latinos, temos essa sanha por comprar? Eu expliquei isso uma vez pra uma americana. Aqui, se você é classe média, ou mesmo classe-média baixa, você vai numa dessas lojas que eu comentei acima e compra sua bolsinha ou blusinha de marca pela metade do preço. Na América Latina você tem que ser muito rico para comprar coisas de marca, então a solução é comprar falsificado. 

Não sei muito bem como e quando isso começou, mas a roupa e outros artigos de marca viraram sinônimos de poder aquisitivo. Por que alguém iria querer “ostentar” poder aquisitivo? Passar de rico? A única resposta que me surge é porque essa pessoa, macho ou fêmea, se tornaria mais atraente para o sexo oposto - ou para o mesmo sexo, dependendo da orientação. Então de repente a graça de não só ter dinheiro mas o querer mostrar que se tem dinheiro, passa a servir um propósito bem básico e primitivo da natureza humana. 

Os latinos - posso falar dos brasileiros - novos ricos adoram ostentar. A gente gosta sim de comprar a bolsa daquela marca, calça de outra. Nos meus tempos de adolescente a gente sabia as marcas que as coleguinhas usavam. Ai meu Deus, eu era da época da Side Play! E pensando racionalmente isso não faz nenhum sentido, a gente se validar através de coisas. Mas… faz sentido pro capitalismo sim.

Enfim, não vou entrar nesse buraco de capitalismo, ostentação, porque é fundo demais e a ideia é que o texto não canse ninguém - nem quem escreve nem quem lê. O fato é que nas lojas citadas acima você sempre vai encontrar gente como eu, latino, procurando alguma coisa de marca, só que mais barato. 

E é assim que essa sensação que aqui você pode tudo é perpetuada. Aqui você pode ter uma bolsinha da Guess, no seu país de origem, só se for falsa. Aqui você pode dirigir o carrão, que no Brasil é praticamente impossível. Aqui você está perto de onde “as coisas acontecem”, já que o mundo sempre está de olho no que tá rolando aqui.

Muita gente se esquece que aqui você também pode ir ao supermercado e comprar salada e comida de verdade, e comer bem, em vez de se encher de porcaria. Ah, mas isso é assunto pra outro post.

Em resumo, a sensação é de que aqui você pode - mesmo que no fundo você saiba que não pode.

Comments

Popular posts from this blog

Tucson, SUN 12 - os arredores.

Banheiro tem manha