Tucson, SUN 12 JAN

     Fazia tempo que eu não pegava um vôo tão longo. Desses de mais de 10 horas.


    Sim, eu sei que eu viajo mais do que a maioria dos brasileiros (e chilenos) médios. Conheço muito bem o aeroporto de Guarulhos e o de Santiago. Sei onde ir, lugar melhor pra comer, descansar, tempos da sala VIP até os portões, onde comprar livro, onde tem promoção de água, onde tem sala VIP que tem garrafa de água que dá pra levar.


    Tenho lado favorito pra voar - o esquerdo, e por muito tempo eu gostava de voar na fila 17. Mas isso é coisa do passado, quando eu era jovem, não tinha pressa e tinha uma bexiga maior, que não requeria tanta manutenção - leia-se: eu fazia bem menos xixi. Sempre me pergunto se realmente a bexiga encolheu ou eu simplesmente passei a tomar muita água.


    Ano passado vim pra cá - EUA. Caminho conhecido, aeroporto conhecido - Miami, que horror!, linha aérea conhecida - American Airlines, outro horror.


    Dessa vez foi diferente. Vôo Delta operado pela LATAM, minha queridinha, que se preocupa com o meio-ambiente e usa bem menos plástico em tudo. Avião melhor - Boeing 787. Cadeiras mais confortáveis e a sorte de ter conseguido um assento LATAM+ - 10 gloriosos centímetros a mais de espaço para essas pernas.


    Há algum tempo troquei a janelinha pelo corredor. Tenho uma rotina definida. Quero entrar logo no avião, arrumar lugar pras minhas coisas. Sento, escolho um filme pra ver. A comida vem enquanto o filme tá rolando. Termino a comida, o filme, escovo os dentes - gente do céu, eu não escovava os dentes antes, como pode!? Agora é hora de dormir. Ou tentar, pelo menos.


    Fiquei pensando no meu primeiro vôo pros EUA, em dezembro de 2002. Era muita coragem pra pouca idade e quase nenhuma experiência. Mas o lindos dos 20 anos - ou 18, no meu caso - é que a falta de noção apaga a necessidade de coragem, que é inata. Pelo menos pra mim era. 


    Lembro que nessa época os aviões não tinham televisãozinha. Mas tinham algo que hoje é quase impossível: ESPAÇO. Na época era comum sobrar assentos no vôo, e era fácil conseguir uma fila inteira pra dormir, ou pelo menos ter a sorte do assento do meio estar livre. Hoje isso é quase impossível. E se acontecer é um milagre, que vale ser comemorado igual a um upgrade grátis pra business.


    Na falta de televisãozinha e in-flight entertainment as opções eram: levar livros pra ler (eu sempre tinha uns 2), levar seu discman e aquele estojo cheio de CDs pra ir escutando, ou escutar a rádio do avião. Sim, antes das minúsculas telas com muitas opções existiam umas 3 ou 5 “rádios”. Sempre tinha música clássica, uma de pop, outra música de velho, uma coisa meio Antena 1..e nos vôos da TAM no Brasil tinha sertanejo também. 


    E naquele dezembro de 2002, uns 10 dias antes do Natal, eu embarquei naquele vôo da United Airlines. Consegui uma fila inteira para mim, depois que o chinês - asiático, no caso, não sei de onde - bufou algumas vezes e mudou de lugar. Lembro que ele tinha um cheiro estranho. Fui deitada nos assentos, escutando muita música clássica, truque que uso até hoje pra dormir. Avião é barulhento, então eu coloco o fone, música clássica e fico ali, dormitando. 


    Uma época tomara rivotril ou coisas parecidas pra apagar e dormir no vôo. Ontem quis fazer o mesmo, mas como saí em cima da hora de casa, esqueci de colocar a clotilde (clotiazepam) na mochila. E quetiapina - que sim, estava no mochila - não era opção. Me deixa muito grogue e não posso estar grogue para qualquer emergência. Não posso chegar grogue na imigração - que mesmo depois de tantos anos viajando e nenhuma situação difícil, eu sei que entrar nos EUA é delicado e requer um comportamento tranquilo, assertivo e seguro para não ter problemas. Mas sempre penso que quem não deve não teme, e eu não devo nada pro Zé Biden, nem pro Trump, nem pro Bush - lembram do Bush? Era tão esculachado… ninguém sabia que tudo ia piorar, e muito.


    No início dos anos 2000 era muito normal umas conexões em Guarulhos de umas 6 horas. E eu ficava lá, com meus livros, no saguão antes de embarcar, lendo…desajeitada naqueles bancos velhos, passando o tempo com livros de serial killer em sua maioria. Foi minha época de ler tudo sobre o assunto. E assim as horas passavam. Entre conversar com estranhos - todos gringos porque eu não perdia uma chance de treinar meu inglês - e ler, as 6 horas não me cansavam. Atualmente eu uso todas as salas vips que puder porque a chance de ter que aguentar cadeiras de “mortais” por mais de duas horas me parece horrível. Quero poltrona, água, um banheiro decente, e comida razoavelmente decente. Mas no início dos anos 2000 um combo do McDonalds tava mais que ótimo. Ou da Pizza Hut. Tudo certo.


    E hoje, desembarcando em LAX eu lembrei disso. Agora, com 22 anos de viagens nas costas, com telinhas cheias de filmes e rituais estabelecidos, eu ainda consigo me encantar em cada chegada, mesmo que seja num país já conhecido.


    Nunca tinha descido em LAX. Foi legal. Achei o aeroporto moderno e bonito. Espaçoso. Dá pra sentir aquela vibe de aeroporto grande, HUB de muitos vôos, entra e sai de gente do mundo inteiro. Diferente de Miami, que parece um shopping decadente e tem quase só latinos. Nada contra os latinos - afinal eu sou uma, né! Mas não gosto daquele aeroporto. Nem sei explicar bem porquê. Talvez a estrutura velha e desgastada, talvez por causa dos sempre presentes grupos de adolescentes indo pra Disney. Será alguma inveja residual pelo fato que não fui uma dessas adolescentes? Aff, mais uma coisa pra levar pra terapia.


    E toda vez que eu chego num país novo - e sim, isso inclui o Brasil -  dá aquela sensação de que agora eu tenho que desbravar o desconhecido, falar com estranhos, achar meu próprio caminho. Aos 18 anos eu nunca duvidei de que era capaz. Agora eu às vezes duvido. Repasso os cenários na cabeça, ativo meu eSim pra ter contato, faço download de mapas para ter acesso offline. Isso porque já nem tenho que carregar malas em ônibus nem metrô, porque agora temos Uber e dinheiro para táxi. E para refeições completas, em restaurantes de verdade, e não só fast food.


    Meu amigo Wehrner diz que admira os brasileiros porque nunca perdem a “capacidade de assombro”, ou seja, a capacidade de se encantar e mostrar o encanto pelas coisas. E para mim isso é verdade.


    Adoro chegar no Brasil. Adoro chegar em outras partes do mundo e ver que ainda dou conta de me virar. Adoro sair para a primeira caminhada pós check-in e desbravar os arredores do hotel, descobrir onde comer, onde compra água, como eu faço pra ir dali para outro lugar. Continuo gostando de praticar meu inglês, e adoro mais ainda quando falo que sou estrangeira e me perguntam de onde sou. Atualmente a resposta é mais difícil: Brazilian, but I live in Chile…also in South America. Sim, meus amigos, a maioria dos gringos tem noção de onde fica o Brasil, mas o Chile não. E com essa resposta composta, tenho que ajudar a galera a se localizar no mapa. Confesso que até rola uma chateação quando não me perguntam de onde sou.


    Mas é isso… amo reforçar pra mim mesma que eu ainda me encanto.


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