O Milho e a Transcendência

Essa semana veio um milho pra mim. Na verdade dois. Na caixa de frutas e verduras que me chega toda semana vieram esses milhos. Aqui no Chile milho é coisa do verão, então a galera aproveita essa época do ano para cozinhar tudo relacionado a isso. Uma pena que eu não goste dessa parte da culinária chilena.

No início confesso que pensei “que saco, o que vou fazer com esses milhos?”. Eu gosto de milho. Muito. Em geral, todos os brasileiros que eu conheço gostam. Os nordestinos e paulistas associam milho e comidas relacionadas à junho e festas juninas. Talvez pela porcaria da cultura religiosa que eu cresci, não tenho costume de festa junina. Mas o fato é que eu tenho a impressão que nós, goianos, nunca precisamos de festa junina para comer tudo o que vem do milho.

Em Goiás comer milho não tem época. É todo dia. Temos nossa pamonha - indiscutivelmente a melhor do Brasil, e tantas outras coisas de milho que consumimos diariamente, sem nenhum ritual de celebração. Só a fome e o gosto por comer milho. 

Os milhos vieram na palha. Já me deu preguiça. Pensei em fazer refogado. Veio à mente a imagem - e o cheiro - de um arroz fresquinho com milho refogado. Gente, que delícia. E logo pensei que eu nunca fiz milho na vida. Nem cozido, nem refogado, nem nada. Inclusive não tenho idéia de como fazer um milho refogado - sei que tem receita na internet e gente para quem eu posso perguntar. Deixei os milhos aí, meio jogados, mas hoje, ao voltar pra casa, criei coragem de mexer com isso.

Abri a palha e a primeira surpresa: os cabelos do milho são brancos! São mais finos e mais escassos. Nada com aqueles milhos infinitamente cabeludos, de cor marrom, que me faziam limpar em dias de pamonhada - quando eu sonhava em sair do serviço de limpar milho e ser promovida ao ralador. Depois de limpar tudo e cortar no meio, coloquei na panela. Como eu tava com preguiça de tirar a panela de pressão, foi na normal mesmo. Consultei no Google quanto tempo, e deixei lá.

Demorou um pouco. Mais do que eu queria. Mas mesmo assim achei que o milho cozido era mais fácil que o refogado, porque imaginei que o refogado precisaria de alho e cebola, e eu não queria mexer com isso pra tão pouco milho. Custou um pouco de paciência mas o milho cozinhou. Que coisa boa! E agora, o que eu faço com isso? Guardo pra amanhã?

Não. Foi nesse momento que eu perdi o controle. O cheiro do milho cozido tomou posse de mim, trazendo à lembrança um turbilhão de memórias. Enquanto eu colocava o sal e a manteiga - de coco, era memória atrás de memória. 

Lembranças aleatórias e gostosas, dessas que parecem um abraço e dão saudade. Como esse dia, que eu acho que era perto do Natal e minha mãe tinha me arrastado pras Lojas Americanas lá da Av. Anhanguera. Na saída tinha um carrinho de milho cozido. Eu pedi, ela comprou pra mim. Vinha na palha. Tinha uma espécie de pincel, também feito de palha, que você passava a manteiga. Não é exagero dizer que eu lembro do prazer de comer esse milho até hoje.

Também me veio à cabeça os fins de tarde da na casa da minha avó, na casa da Vila Nova. A panela de pressão cheia de milho recém cozido. Todo mundo na mesa pegando um, colocando sal, manteiga, o que fosse. Não tenho idéia da conversa, mas lembro claramente do sabor do milho. 

A cada mordida, a cada ataque dos meus dentes no milho cozido, era uma explosão de sinapses e o coração que batia mais forte com as memórias afetivas que surgiam. E de repente eu notei que não era mais o sabor nem o cheiro a razão que eu estava comendo. De certa forma eu parecia querer reviver tudo o que estava dentro da cabeça, e o milho foi o meio portal.

É interessante como todos os chefs de grandes restaurantes se consagram por cozinhar comidas de suas próprias terras. Com releitura ou não, em geral eles voltam às origens e vão para a cozinha fazer a comida que sempre comeram em casa. E faz todo o sentido. Porque não é só o cheiro e o sabor, mas tudo aquilo que esses cheiros e esses sabores evocam, que transcende a comida em si. A nossa ancestralidade se manifesta inevitavelmente na comida.

Eu nem tava com fome hoje quando comi meu milho cozido. Mas foi uma delícia. Me senti abraçada pelas memórias, conectada com a minha ancestralidade, e com a certeza de que os que já foram não se foram completamente, porque vivem aqui nos meus gen

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